Especialistas defendem a formação de profissionais para atender melhor às gestantes
Recordista mundial em cesarianas, o Brasil precisa acabar com a violência durante o parto para que gestantes percam o medo de parir naturalmente. Para isso, é preciso acelerar a formação dos profissionais da rede de saúde e atender bem a gestante, oferecendo conforto no momento em que ela estiver dando à luz. A avaliação é de especialistas na área de obstetrícia, que se reúnem nesta terça-feira (11/10) e quarta-feira (15/10), no Rio de Janeiro, em conferência internacional para 1,3 mil pessoas.Pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Maria do Carmo Leal lembra a Pesquisa Nascer no Brasil: Inquérito Nacional Sobre o Parto e Nascimento para listar fatores que fazem o país ter 56% de partos cesarianos, enquanto a média mundial é 18%. Revela que as gestantes brasileiras são proibidas de caminhar e de se alimentar para aliviar contrações, recebem ocitocina (hormônio sintético) para acelerar o parto e passam por procedimentos como episiotomia (corte vaginal para aumentar a dilatação) e ruptura artificial da bolsa.
“Essas coisas acontecem sem nenhuma anestesia, com as mulheres sofrendo muito, de forma que elas tenham pavor óbvio do parto normal”, analisou a pesquisadora. Entre 2011 e 2012, ela coordenou a pesquisa com 23 mil mulheres em todo o país. Conforme Maria do Carmo, as mulheres ficam na “pior posição possível” na hora do parto. "Elas ficam deitadas e, apesar de ser lei federal, muitos hospitais, públicos e privados, não permitem a entrada de um acompanhante. Ou seja, o Brasil não não estimula um bom parto”, salientou.
A pesquisa Nascer do Brasil, que acompanhou mulheres e bebês, revelou que, no início da gravidez, seis em cada dez mulheres preferem parir naturalmente. A avaliação muda durante a gestação e, principalmente, na hora do parto, por causa da violência, explica a enfermeira obstétrica Heloisa Lessa, com doutorado na área. “O melhor ambiente para o parto é aquele parecido com o local onde o bebê foi concebido, com luz baixa. A mulher tem de se sentir tranquila”, explicou. “Se ela estiver relaxada, vai parir melhor”, assegurou.
Maria do Carmo e Heloísa Lessa destacaram que, entre as vantagens do parto normal, estão a redução da morte materna, de complicações hemorrágicas e infecciosas. Para os bebês, diminui o risco de morte intrauterina, complicações respiratórias e problemas como asma e obesidade na infância. Pesquisas com esses indicadores serão apresentadas no evento. “Temos de trazer as evidências para quem está na ponta colocar em prática”, assinalou Heloisa.
Na quinta-feira (15/10), para diminuir o número de cesáreas desnecessárias, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Saúde Suplementar publicarão consultas públicas sobre duas resoluções. Uma delas prevê a apresentação de um partograma explicando procedimentos feitos durante o parto.

